Pense no que aconteceu com a música. Nos anos 90, para ouvir uma música, você precisava comprar o CD inteiro. A loja abria em horário comercial. O CD era físico, indivisível, e se você quisesse revendê-lo, tinha que encontrar um comprador pessoalmente.
Então vieram o iTunes, o Spotify e a distribuição digital: a música se
tornou instantânea, fracionável, global e acessível 24 horas. Agora imagine que esse mesmo processo está acontecendo com ações, títulos do
governo, imóveis e commodities.
Para Lucas Iagla Turqueto, investidor e analista de mercados digitais, é exatamente isso que a tokenização de ativos está fazendo — e as maiores instituições financeiras do mundo já estão embarcando.
O que é tokenização, em linguagem simples
Tokenizar um ativo é criar uma versão digital dele em uma blockchain. Essa versão digital — o token — representa a propriedade real do ativo: quem possui o token, possui o ativo. Funciona como a escritura de um imóvel, mas digital, programável e negociável instantaneamente.
A diferença prática é enorme. Hoje, para comprar uma ação na NYSE, você precisa de uma corretora, a bolsa precisa estar aberta, e a liquidação leva um dia útil.
Com tokenização, você pode comprar uma fração dessa ação a qualquer hora, de qualquer lugar do mundo, com liquidação instantânea e a partir de US$ 10.

Não são startups — são BlackRock, NYSE e JPMorgan
O que torna o momento atual diferente de ciclos anteriores de entusiasmo com blockchain é quem está liderando. “Não são startups de garagem prometendo revoluções. São as maiores instituições financeiras do planeta.” – Indica Lucas Iagla Turqueto.
A BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, lançou o fundo BUIDL — um fundo de liquidez institucional totalmente digital que atraiu mais de US$ 550 milhões em meses.
O JPMorgan, através de sua rede Kinexys, já processou US$ 1,5 trilhão em transações tokenizadas. A Goldman Sachs tem três produtos tokenizados em desenvolvimento. A Robinhood e a Coinbase já oferecem ações tokenizadas para investidores.
E, talvez o sinal mais eloquente: a NYSE, a bolsa de valores mais icônica do mundo, anunciou em janeiro de 2026 uma plataforma de negociação 24/7 para ações e ETFs tokenizados, com liquidação instantânea e financiamento via stablecoin.
Quando a instituição de 232 anos aposta seu futuro em blockchain, algo irreversível está em curso.

Os números por trás da revolução
O mercado de ativos tokenizados (excluindo stablecoins) cresceu de US$ 85 milhões em 2020 para mais de US$ 24 bilhões em 2025 — um crescimento de 28.000% em cinco anos.
Mas o mais impressionante são as projeções para os próximos anos. A Ark Invest, de Cathie Wood, projeta que ativos tokenizados podem ultrapassar US$11 trilhões até 2030.
O Boston Consulting Group, em parceria com a Ripple, estima US$19 trilhões até 2033. A McKinsey e o Standard Chartered projetam US$ 2 trilhões já
para 2028.
Mesmo no cenário conservador da 21.co, o mercado atinge US$ 3,5 trilhões no final da década. Em todos os cenários, o crescimento é exponencial.

O que muda para o investidor comum
Lucas Iagla Turqueto é investidor e analista do mercado de ativos digitais, com foco em infraestrutura financeira descentralizada, stablecoins e tokenização de ativos reais.
Acompanha de perto a convergência entre mercados tradicionais e blockchain. Na visão dele, para o investidor brasileiro, a tokenização resolve problemas concretos. Quer investir em títulos do Tesouro americano? Hoje, isso exige conta internacional, conversão de câmbio, taxa de corretagem.

Com tokens, é possível comprar uma fração de um T-Bill por poucos dólares, com liquidação instantânea. Quer investir em um imóvel comercial em Manhattan?
A tokenização permite comprar uma fatia a partir de US$ 10, receber renda proporcional de aluguel e vender a qualquer momento — sem
cartório, sem escritura, sem esperar meses.
É a mesma lógica da música digital: o ativo não muda, mas a forma de acessá-lo muda completamente. E quando o acesso muda, o mercado se expande. O Spotify não matou a música — criou 600 milhões de ouvintes que nunca teriam comprado um CD.
A tokenização não vai matar o mercado financeiro — vai abri-lo para bilhões de pessoas que nunca tiveram acesso.
O que vem a seguir
A regulamentação está se alinhando: o GENIUS Act nos EUA criou o framework para stablecoins, o Clarity Act (esperado para 2026) vai regular ativos digitais, e a MiCA já está em vigor na Europa.
Mais de 200 projetos institucionais de tokenização estão ativos globalmente, e 86% dos investidores institucionais já têm ou planejam exposição a ativos digitais. A tokenização de ativos não é uma tendência futura.
É uma transformação em curso, liderada pelas maiores instituições do mundo. A pergunta para o investidor não é se isso vai acontecer — é se ele vai estar posicionado quando acontecer.
