A crescente presença de alimentos ultraprocessados nas dietas ao redor do mundo pode influenciar até o começo da vida humana. Um estudo divulgado no dia 24 deste mês, desenvolvido em Roterdã, na Holanda, indicou que o alto consumo desses alimentos pode reduzir a fertilidade masculina, além de interferir no desenvolvimento do embrião durante a gravidez. A pesquisa é uma das primeiras a analisar essa relação de forma combinada entre homens e mulheres.
O grupo de pesquisadores do Centro Médico da Universidade Erasmus reuniu 831 mulheres e 651 homens, que foram acompanhados desde antes da concepção até o início da gestação. Ao analisar os hábitos alimentares, o tempo necessário para engravidar e o desenvolvimento inicial dos embriões, os cientistas cruzaram os dados para chegar às conclusões. Eles ressaltam, no entanto, que a relação observada é associativa e não comprova causa direta.
Para quem tem pressa:
- Estudo da Holanda indica que o consumo de ultraprocessados pode reduzir a fertilidade masculina e afetar o desenvolvimento do embrião;
- Homens com maior ingestão desses alimentos apresentaram mais dificuldade para engravidar as parceiras; em mulheres, impacto aparece durante a gestação;
- Pesquisadores reforçam que a relação é associativa e não comprova causa direta, mas acende alerta sobre hábitos alimentares.
Alimentos ultraprocessados também se relacionam com outros problemas de saúde

Já associados a problemas de saúde como câncer, doenças cardiovasculares e aumento de peso, os ultraprocessados representam cerca de 60% da alimentação diária em países de alta renda, segundo o estudo. No Brasil, esse número é de aproximadamente 23%, de acordo com pesquisa da Universidade de São Paulo (USP).
“Apesar de os alimentos ultraprocessados serem tão comuns em nossas dietas, muito pouco se sabe sobre sua possível relação com os resultados de fertilidade e o desenvolvimento humano inicial”, disse a Dra. Romy Gaillard, pediatra e professora que liderou o estudo.
Os casais analisados entre 2017 e 2021 apresentaram uma média de consumo de ultraprocessados de 22% entre as mulheres e 25% entre os homens. No caso masculino, essa maior ingestão foi associada a um aumento no risco de subfertilidade.
A explicação pode estar relacionada à sensibilidade dos testículos ao estresse oxidativo, à inflamação e à deficiência de micronutrientes. Em entrevista ao Correio Braziliense, Eduardo Rauen, médico especialista em nutrologia e medicina do exercício e do esporte, explicou que dietas ricas em ultraprocessados podem agravar esse cenário.
Uma dieta baseada em ultraprocessados costuma caminhar exatamente com esse pacote: mais açúcar e gordura de pior qualidade, menos fibras, menos vitaminas e minerais, mais aditivos e, muitas vezes, mais exposição a compostos vindos de embalagem.
Eduardo Rauen
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Entre as mulheres, os efeitos aparecem de forma diferente. Inicialmente, o consumo de ultraprocessados não foi associado à redução da fertilidade, mas sim a alterações no desenvolvimento do embrião. Os pesquisadores observaram que, por volta da sétima semana de gestação, o embrião e o saco vitelino apresentavam tamanho menor em comparação a gestações consideradas saudáveis.
Essa condição pode estar ligada à nutrição materna, já que, no início da gravidez, o embrião depende do ambiente metabólico da mãe. “O embrião está em intensa divisão celular e depende muito do ambiente metabólico e nutricional materno”, destacou o médico.
Próximos estudos buscam compreender o impacto a longo prazo

O estudo se limitou a associações e não estabelece uma relação de causa e efeito. Ainda assim, os autores defendem a necessidade de novas pesquisas para aprofundar a compreensão sobre os impactos da alimentação na fertilidade e no desenvolvimento inicial da vida.
“Mais pesquisas são necessárias para replicar nossos resultados em diversas populações e para estudar os potenciais mecanismos biológicos subjacentes a esse efeito”, concluiu Gaillard.
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