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Uso de armas envenenadas pode ter começado antes do que se pensava

by Fesouza
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Pesquisadores identificaram as evidências diretas mais antigas já registradas do uso de flechas envenenadas, a partir da análise de artefatos com cerca de 60 mil anos encontrados no sul da África. Os achados mostram que antigas pontas de flecha ainda preservam vestígios de resíduos tóxicos de origem vegetal, mesmo após dezenas de milhares de anos.

A descoberta antecipa em dezenas de milhares de anos o registro mais antigo conhecido do uso de venenos em armas de caça. Até então, as evidências mais antigas de flechas envenenadas na África datavam do médio Holoceno, há aproximadamente sete mil anos.

Flechas envenenadas
Pontas de flechas antigas com vestígios de veneno (Imagem: Isaksson et al., Sci. Adv., 2026)

De acordo com os pesquisadores, o veneno identificado não seria imediatamente letal, mas poderia matar um roedor em cerca de meia hora. Provavelmente, era utilizado para desacelerar os animais caçados, permitindo que os humanos os rastreassem com mais eficiência.

“Armas envenenadas são uma marca registrada de tecnologias avançadas de caçadores-coletores”, escreveu a equipe internacional de pesquisadores, formada por cientistas de universidades da Suécia e da África do Sul.

“Além de fornecer a primeira evidência de caça com flechas envenenadas durante o Pleistoceno tardio no sul da África, nossos achados contribuem para a compreensão da adaptação humana e da complexidade tecnocomportamental durante uma fase de rápida inovação cumulativa na região”, acrescentam os autores.

Onde as pontas de flechas envenenadas foram encontradas

  • As antigas pontas de flecha foram descobertas originalmente em 1985 no abrigo rochoso de Umhlatuzana, na província de KwaZulu-Natal, na África do Sul. No entanto, por décadas, os artefatos permaneceram guardados em um museu sem serem analisados em detalhe;
  • Agora, pesquisadores da Universidade de Estocolmo (Suécia), da Universidade Linnaeus (Suécia) e da Universidade de Joanesburgo (África do Sul) examinaram dez dessas pontas que apresentavam resíduos visíveis;
  • Utilizando uma técnica chamada cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massa, a equipe identificou compostos tóxicos de origem vegetal em algumas das peças — a primeira evidência direta da presença de veneno vegetal em armas de caça do período Pleistoceno;
  • A fonte mais provável do veneno é a planta Boophone disticha, abundante no sul da África e historicamente documentada como ingrediente de venenos usados por populações locais para caçar animais como o antílope springbok (Antidorcas marsupialis).

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Detalhes das flechas envenenadas
Pontas de flecha antigas com vestígios de alcaloides tóxicos de plantas (Isaksson et al., Sci. Adv., 2026)

Comprovando a teoria

Embora alguns cientistas já tivessem levantado a hipótese de que a caça com arco e flecha no sul da África durante o Pleistoceno tardio estivesse associada ao uso de venenos, as evidências até então se baseavam sobretudo em sinais mecânicos e possíveis resíduos vegetais considerados ambíguos.

O arqueólogo Sven Isaksson, da Universidade de Estocolmo, liderou o estudo recente com o objetivo de testar essa hipótese. Por anos, ele e seus colegas trabalharam para extrair evidências claras de venenos vegetais em pontas de flecha com apenas algumas centenas de anos. Agora, aplicaram as mesmas técnicas em artefatos milhares de anos mais antigos.

Ao todo, cinco das pontas de flecha com cerca de 60 mil anos apresentaram traços de bufandrina, alcaloide tóxico também identificado em flechas envenenadas de aproximadamente 250 anos atrás. Outro alcaloide tóxico, a epibufanisina, foi identificado em uma das pontas analisadas. No artigo publicado, Isaksson e seus colegas afirmam que isso “não pode ser coincidência”.

Tanto a bufandrina quanto a epibufanisina estão presentes nas folhas da Boophone disticha. Dos 269 grupos de caçadores com arco historicamente conhecidos no sul da África, 168 são conhecidos por utilizar flechas envenenadas.

A identificação desses resíduos tóxicos em pontas de flecha com cerca de 60 mil anos sugere que essa estratégia engenhosa de subsistência tem raízes muito mais antigas do que se imaginava. “Como o veneno não é uma força física, mas atua quimicamente, os caçadores também devem ter dependido de planejamento avançado, abstração e raciocínio causal”, especulam os autores do estudo.

Antes mesmo dessa descoberta, uma das autoras do trabalho, Marlize Lombard, da Universidade de Joanesburgo, já defendia que era razoável supor que caçadores-coletores do sul da África utilizavam pontas de flecha envenenadas há cerca de 60 mil anos, ou até antes.

Análise das pontas de flecha
Análise das pontas de flecha, que apresentam cicatrizes de impacto microscópicas (setas) (Imagem: Isaksson et al., Sci. Adv., 2026)

Em artigo publicado em 2025, ela destacou que, nesse período, as populações da região já conheciam e utilizavam plantas comestíveis, medicinais e repelentes de insetos, levantando a questão de por que não conheceriam também plantas tóxicas.

Descobertas recentes reforçam essa complexidade comportamental. Cientistas encontraram evidências de que neandertais produziam colas complexas a partir de plantas há cerca de 200 mil anos.

O estudo foi publicado na revista Science Advances.

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