Home Variedade Venture capital: o poder dos outliers e a era dos retornos extremos

Venture capital: o poder dos outliers e a era dos retornos extremos

by Fesouza
3 minutes read

Um dos relatórios mais relevantes desta semana foi o novo estudo da Carta sobre o desempenho de fundos de venture capital no 4º trimestre de 2025. A leitura principal é difícil de ignorar: o mercado de venture está evoluindo rapidamente para um modelo em que poucos capturam quase todo o retorno.

Ao analisar as vintages de 2017 a 2024, o padrão é consistente: a maior parte do valor gerado vem de um grupo muito restrito de fundos fora da curva. Mais importante: a diferença entre fundos bons e excelentes é desproporcionalmente maior do que a distância entre fundos medianos e ruins. Em 2019, por exemplo, os top 10% entregaram cerca de 3,0x de TVPI, contra 1,9x no top 25% e 1,33x na mediana. O salto dentro do topo da distribuição é maior do que todo o restante combinado.

Esse comportamento não é pontual — ele se repete ao longo dos anos e, em alguns casos, se intensifica. Em 2017, o top 10% chegou a 4,1x de TVPI, enquanto o top 25% ficou em 2,5x. Isso reforça uma dinâmica estrutural de venture: poucos acertos extraordinários determinam o resultado final. Fundos que capturam um ou dois outliers conseguem carregar o portfólio inteiro; os que não capturam, dificilmente compensam.

Os vintages mais recentes ainda estão em formação, mas já indicam uma inflexão. Após anos pressionados, os IRRs medianos de 2021 e 2022 finalmente voltaram ao território positivo — 1,4% e 0,7%, respectivamente — refletindo a dinâmica clássica de J-curve. Já os vintages entre 2017 e 2020 permanecem acima de 4,2% de IRR mediano, embora com leve compressão à medida que amadurecem.

Apesar desses sinais, uma parte significativa do capital ainda não foi alocada. O nível de dry powder continua elevado: cerca de 72% do capital dos fundos levantados em 2025 segue não investido, contra 53% em 2024 e 35% em 2023. No total, essas três vintages concentram mais de US$ 19 bilhões disponíveis. Isso mantém a competição por ativos de qualidade elevada e, ao mesmo tempo, deixa claro que os resultados finais ainda estão em aberto.

O pano de fundo do mercado aponta para normalização, não expansão. O fundraising ganhou tração no Q4 de 2025, alcançando US$ 41 bilhões — o melhor resultado desde o início de 2022. A incidência de down rounds caiu para 14,5%, mínima em três anos, embora ainda acima do padrão pré-2021. O tempo entre rodadas voltou a encurtar, especialmente de Seed para Series A, e as taxas de progressão entre estágios começam a se recuperar.

Mas há uma concentração que domina todas as outras: Inteligência Artificial. Startups de IA capturaram 41% de todo o capital levantado em 2025, a maior participação já registrada. Esse nível de concentração já aparece nos retornos — sobretudo entre fundos que estão no top 10%.

O quadro geral é direto. O mundo de venture sempre foi “desigual”, mas agora a concentração está aumentando de forma clara. Os melhores fundos estão se distanciando mais rapidamente, os vintages pós-2021 mostram fundamentos mais disciplinados e os próximos anos serão decisivos à medida que volumes relevantes de dry powder encontram um mercado de exits ainda em recomposição. Em venture, não basta acertar — é preciso acertar de forma desproporcional.

Na América Latina, essa dinâmica se torna ainda mais crítica. Os resultados continuarão concentrados em um número muito pequeno de fundos e empresas capazes de atingir escala global. Em um ambiente global mais concentrado, o nível necessário para se destacar sobe — justamente em um ecossistema com menos liquidez, fundos menores e acesso desigual ao capital. Os vintages pós-2021 partem de um ponto de entrada melhor, mas isso não elimina o desafio central.

Apenas gestores que combinam disciplina de preço com exposição a temas globais — como IA, infraestrutura de fintech e plataformas cross-border — têm chance real de chegar ao topo, onde os retornos de fato se concentram. Para LPs, a implicação é mais dura: estar acima da média já não é suficiente; quase todo o valor está nos verdadeiros outliers.

You may also like

Leave a Comment